segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Um Oriental na Eternidade

     – Agora vou contar a história de Kazuki Kurokawa – disse minha avó, competindo a atenção com o peru recém-destampado. Seria a trigésima vez que eu ouviria essa história, pois eu tinha trinta anos e ela contava isso todo natal. Quem tinha quarenta e nove anos, a ouviria pela quadragésima nona vez.
     Kazuki Kurokawa, o cientista que atravessou dois continentes para conhecer o Rio Negro e escolheu minha avó para espalhar suas cinzas nele. Nunca acreditei. Havia muitas perguntas sem respostas. Me parecia loucura de uma mulher que era afeiçoada por índios e passou boa parte da juventude tomando chás alucinógenos com eles ou mentira de alguém que conviveu demais com ribeirinhos – eles adoram inventar conversa. Já estava cheia daquela história, se tivesse que ouvi-la mais uma vez, eu mesma me atearia fogo e pediria que jogassem minhas cinzas no Rio Negro. Quando fez seu anúncio, não me contive e disse tudo isso pra ela.
     Quanto mais olhares miravam-se à mim e despregavam-se do peru de natal, maior se tornava em minha percepção o erro que acabara de cometer. Todos os olhos ao redor da mesa atiravam condenações através do silêncio.
     – Eu entendo você – respondeu minha avó, brandamente –, se no lugar desconhecido habita o desejo, na falta de respostas reside a inquietude – prosseguiu – Me aguarde aqui.
     Ela foi ao seu quarto, retornou segurando um envelope e o entregou-me.– Leia esta carta em voz alta, por favor.
     O aspecto obsoleto do papel e os cantos consumidos pelas traças revelavam que esteve esquecido por algum tempo. Tratava-se de uma carta vinda do japão. Kazuki Kurokawa era o remetente, o que me chocou, pois isso provava a sua existência. Retirei uma folha do envelope e a li como me foi pedido.
     “Olá, velha amiga. Peço-lhe com antecedência que queime esta carta após lê-la, pois ela pode romper a tradicional discrição da minha família. Infelizmente, falecerei antes que você a receba. Temo que as circunstâncias dos nossos encontros tenham causado-lhe dúvidas, afinal não há nada que inquiete mais as nossas mentes de cientistas do que a falta de respostas.
     Por que um especialista em água doce escolheu um rio tão distante de seu corpo e de sua história? Por que não o Rio Sebik, no qual passei boa parte da minha vida entre montanhas e pântanos, estudando a biodiversidade daquela região exótica e cheia de aborígenes? Ou o Rio Shinano, palco das Batalhas de Kawanakajima, bravamente lutadas pelos ancestrais da minha família, sempre referidos por meu avô como verdadeiros samurais.
     Para responder essas indagações, preciso contar a história de um presente de infância. Um medalhão, que sempre carreguei comigo, cujo a face frontal ilustrava o famoso simbolo do yin e yang e o seu verso apresentava ideogramas com o seguinte significado:
     “O bem e o mal se atraem e tendem a tornarem-se um só pela eternidade.”
     Desde criança, minha mãe ensinou-me que na vida, o bem e o mal apresentam-se em uma sinfonia cujo os instrumentos são indiscerníveis. O que é bom também é mal. Pessoas, objetos, experiências, a regra valia para tudo. “Veja o Bem como uma maçã”, disse ela, numa vívida memória de infância, “e o Mal como uma banana. Bata os dois num liquidificador. O resultado vai ser a essência de tudo o que existe. Uma vitamina de maçã e banana.”
     – O que você sabe sobre o Brasil? – perguntou minha mãe, durante um jantar quando eu tinha doze anos.
     – Eu conheço os rios – respondi. – Existe um fenômeno, que os brasileiros chamam de “o encontro das águas”, em que dois rios correm lado a lado por seis quilômetros e quando se misturam, assim como a união do Bem e do Mal, tornam-se um só, o rio Amazonas, o maior do mundo. Um deles é negro como a noite, por causa das minhocas que moram nele. Elas expelem um ácido chamado húmus e como se o rio fosse uma chaleira gigante, o ácido decompõe as folhas e galhos, o que forma a cor escura.
     – E sobre a história do casal de japoneses no Brasil? – ela perguntou, desconsiderando a interessantíssima informação que havia falado.
     Neguei com a cabeça. Tinha a ouvido por partes em conversas “de adulto” das quais eu não participava.
     – Então está na hora de ouvi-la – disse – Preste atenção. Uma mulher, na companhia de alguns conterrâneos, fugiu do Japão devido a perseguição da policia nazista. Junto com seu grupo, ela foi para Manaus, uma cidade brasileira que costumava ser muito rica, pois exportavam borracha, matéria-prima muito importante para a confecção de armas. Trabalhou na extração de látex por quase um ano.
     “Como levou algum dinheiro do Japão, somou com a quantia considerável que ganhou trabalhando quatorze horas por dia e comprou um pequeno terreno no qual produziu o seu próprio látex. Conseguiu compradores e empregados. Aos poucos, seu seringal cresceu e ela tornou-se uma seringalista de muitos recursos. Um de seus empregados, um japonês também refugiado, tornou-se seu marido e juntos tiveram um filho. Diferente dos outros donos de seringal, ela solicitava o estocamento das sementes e foram guardadas em centenas de sacos por quase meia década”.
     “A guerra acabou. O negócio de produção de borracha enfraqueceu. A maioria dos trabalhadores que não morreram viraram mendigos ou escravos por dívidas. A cidade voltou a ser pobre, mas não o casal de japoneses. Eles abriram uma fábrica de tintas e vernizes, produzidos a partir das sementes de Seringueiras. Viveram uma vida razoável com o recém-nascido ao redor do Rio Solimões, juntos com os habitantes locais e alguns refugiados.”
     “Um policial apareceu um dia, gritando que os moradores deveriam se retirar em uma semana, por bem ou por mal. Todos, num raio de mil quilômetros, seriam desapropriados para a obra da primeira grande construção amazonense: A Usina Hidrelétrica de Balbina. Quando o policial retornou na semana seguinte, aborígenes, moradores e refugiados organizaram-se em uma multidão, obstruindo a passagem até a vila em que moravam. Reforços policiais chegaram, organizaram-se em linha e marchando rumo à aglomeração, dissolveram-na”.
     “Uma pedra arremessada em um policial bastou para que começassem a abrir fogo contra os civis. O casal de japoneses correu de volta para casa. A mulher pegou seu bebê e junto com seu marido, pegaram uma canoa na beira do rio. Remavam o mais rápido possível, quando uma bala perdida os encontrou. Atravessou o peito do homem e atingiu a cabeça da mulher. Ambos caíram direto na água. Uma refugiada japonesa testemunhou a queda e mergulhou até o casal, mas constatou que apenas a criança sobrevivera. Ela a resgatou e adentrou a mata amazônica. Os corpos dos pais foram levados pelo Rio Solimões e nunca foram achados. O bebê estava enrolado por dois panos e usava, em volta do pescoço, esse colar que você usa agora, Kazuki.”
     Olhei para o colar, tentando fazer uma associação.
     – Fui eu a refugiada que te resgatou do rio – ela concluiu.
     A revelação não me chocou, os pais que me criaram sempre foram meus verdadeiros pais, mas desde que ouvi essa história, a sensação de pertencimento àquelas pessoas e àquele lugar cresceu em mim, o fato de que jamais os conheceria me incomodou e nunca esqueci a metáfora com o encontro das águas. Assim como a inevitável atração do bem e do mal, o Rio Negro se unirá ao rio Solimões e eu me tornarei um só com meus pais pela eternidade.”
     Terminando de ler a carta, olhei para minha avó e a vi chorando. Abracei-a, também emocionada.
     – Nunca tive coragem de lê-la – disse ela. – Vamos fazer como ele pediu e queimá-la – prosseguiu.
     Todos nós à mesa abandonamos o peru e fomos ao quintal no fundo da casa. Improvisamos uma fogueira e colocamos a carta sobre ela. E observando essa última lembrança do cientista em forma de fumaça branca, flutuando rumo à vastidão de um rio negro celestial, ouvimos minha vó contar mais uma vez a história de Kazuki Kurokawa.

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