sábado, 9 de julho de 2016

Como provar sua onisciência

O lado dela estava vazio. Antes de conhecê-la, gostava de me esparramar pelo meio da cama. Não sabia que horas eram, só que era madrugada. Fazia anos que não tinha rádio-relógio, presente de casamento. Não queria pegar o celular. Tinha medo de receber um whats ou uma notificação dela, ou de algum amigo em comum, e então saber, de vez, que tudo acabou. Perdi o emprego, perdi o cachorro – o Sansão –, perdi o amor da minha vida e, nisso tudo, me perdi também. É, meu pai tinha razão: nunca conseguiria manter nada nessa vida.

Seu aroma de limão siciliano permanecia no travesseiro, resgatando em minhas memórias os momentos que passamos juntos. O rosto dela era o tesouro que sempre procurei. O brilho de seu cabelo ofuscava a luz do sol. Eu costumava dizer que foi feita por Deus especificamente para mim, o que de imediato a derretia. Meus olhos lacrimejavam. Uma das principais frases de desmotivação de meu pai surgiu em minha mente: “Tome jeito na vida ou vai continuar sendo um merda para sempre”. Me encolhi e abracei meus joelhos. De fato, o que eu conseguiria deitado na cama? A ideia de me declarar para ela quantas vezes fosse necessário até que me aceitasse de volta me ocorreu. Até me ajoelharia. Ela veria o quanto nosso amor era incomensurável.

A ideia de reencontrá-la energizou o meu corpo. Me levantei e me dirigi ao armário para vestir minhas melhores roupas, quando algo rompeu meu teto e caiu sobre mim.

Acordei numa sala feita de nuvem com apenas uma porta e outro homem.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Um cachalote, mas ainda vai acontecer — disse o homem — poderá ter acontecido — continuou, apertando os olhos — Sempre peco nessa coisa de gramática de viagem no tempo. É o seguinte, filho meu, te arrebatei porque você estava sendo muito piegas.

— Você é Deus?

— Talvez, prefiro Francisco – respondeu. – Apostei com os querubins que você não tentaria reconquistar a garota. Eu sei, eu sei, isso é muito errado em diversos âmbitos, ouço isso o tempo todo, mas essa é a verdade: a Terra é uma espécie de reality show para nós aqui e a humanidade existe por isso, apenas supere.

Meu corpo entraria em desespero se parte de mim não acreditasse que isso tudo era um sonho.

— Sei que você acredita que isso tudo é um sonho e te garanto que pode ser, embora concordemos que esse é o pior final possível pra qualquer história. Deixa eu te explicar: os anjos andam duvidando da minha onisciência desde que Eva comeu o fruto proibido, dizendo que eu só mandei escrever isso em Salmos porque tenho um ego inflado e frágil. Talvez meu ego seja meio inflado mesmo, sabe? Sempre espero que as pessoas me engrandeçam, me exaltem, me louvem, me glorifiquem, eu inventei esses verbos só pra serem usados comigo. Agora preciso provar para mim mesmo e para eles de que sou onisciente, sim. Entre na porta.

Hesitei para entrar, temia não voltar mais. A madeira da porta parecia com a de um caixão usado, mas a parede reluzia de forma tão penetrante quanto os cabelos de...

— Entra logo nessa porta, ô pamonha! Piegas e medroso, é por isso que as mulheres te largam. Leitor, deixa eu te falar uma coisa, sim, oi Leitor, eu sei, metalinguagem e tal, Deus pode fazer isso. Onipotência. Desculpe a interrupção, mas vou assumir o papel de narrador dele, pois estou sem paciência.

Prosseguindo, ele entrou. O chão de lama e as paredes de madeira faziam o lugar parecer um chiqueiro. Ou o inverso de um chiqueiro: os porcos eram pessoas e as pessoas que dominavam-nas eram porcos. História humana que se repetia. “Haben die Operation ohne Narkose!”, rosnou um dos porcos. “Wie Sie Wünschen, sir! Heil Hitler!”, grunhiu outro. Um homem subnutrido jazia sobre uma mesa de concreto, amarrado por cordas enquanto outro abria-lhe a barriga com um bisturi. Ouvia-se apenas os seus gritos no Campo de Concentração.

— O que está acontecendo? — meu companheiro perguntou.

— Bom, o que você tá vendo: alguém com um problema bem maior que o seu. Vamos andando.

Entramos noutra Porta do Escárnio. Ah, é assim que se chamam essas portas. Elas surgem onde eu, Francisco, quiser e me levam para meu destino de desejo. Onipresença. Estávamos na UTI de um hospital. Um rapaz em estado terminal deitava-se numa maca. Aproximei-me para interagir com ele. Projetei-me para ele com um manto branco em meu corpo e uma prancheta em minha mão.

— Deixa eu ver aqui — falei, olhando um relatório — Jorge Carlos, não é isso?

— Deus? — perguntou o moribundo.

— Talvez — respondi e voltei a olhar na prancheta. — Notório humorista. Conhecido por suas piadas com Deus e religião. Fez muitos rirem com seu humor “negro” e ácido. Muito bem, Jorge, parabéns! Estou aqui pois esses são seus últimos segundos, só para te dizer que não importa o quanto se riu dos outros, pois no fim da vida a verdadeira piada é você. — Nesse momento, o coração de Jorge parou de funcionar para sempre.

Meu companheiro parecia estupefato. Passamos por mais um portal. Dessa vez, enviei-nos para uma rua às 23 horas. Apenas um homem e uma mulher caminhavam e conversavam na calçada. Meu parceiro reconheceu o rapaz. Era o seu pai, que agora segurava a mulher pela cintura, mas antes de tentar beijá-la, ela o afastou.

— Você é bem diferente das fotos no Tinder – disse a moça.

— Ah, gatinha, pelo menos um beijinho você tem que me dar — disse o rapaz. Tentou beijá-la mais uma vez, levou um empurrão. Agarrou-a e a pressionou contra uma parede, ela gritou. Pensou em tampar sua boca quando alguém surgiu de uma das esquinas da rua. Largou-a onde estava e saiu de cena assobiando.

— Talvez você não consiga manter nada, como ele dizia, mas gostaria de conseguir coisas desse jeito?

— Não acredito que meu pai faz isso.

— Foi só essa vez, mas o ponto aqui é o seguinte: o que ele te dizia eram opiniões de um ser humano que, como outro qualquer, é passível de erro, portanto, você não deveria tomá-las como verdades absolutas.

Retornamos à sala de nuvem. Projetei um controle com dois botões em minha mão. Num botão, estava escrito “Tudo um sonho” e no outro “Cachalote”. Perguntei-o o que havia achado do tour espiritual.

— Isso tudo foi para menosprezar o amor que sinto por ela?

— Foi para te tirar daquela bolha cheia de pieguice e drama na qual você se encontrava.

— Ela é o amor da minha vida!

— Que amor de vida o quê! Tu acha mesmo que eu me daria ao trabalho de elaborar uma pessoa que minunciosamente te completasse?! Humanos são feitos de qualquer jeito, justamente pra ficarmos assistindo vocês brigarem, fazerem barraco, é hilário. Hora da sua decisão. Vai desistir da menina?

— Entenda, por favor, se ceder, terei que lidar com o fardo de ser um desistente. O que sinto por ela nunca vai passar. Vai crescer até tornar-se incontrolável. É inevitável. Eu vou morrer de amor.

— Tá, tá, já entendi — falei e apertei o botão do cachalote. No mesmo instante, ele sumiu da minha frente para sempre. Horas depois, um anjo me perguntou sobre a aposta.

— Ah, um cachalote o esmagou, acredita? — respondi ao anjo — Como ele não reconquistou a garota, eu ganhei, mas devo admitir: só entrei na aposta porque já sabia que isso ia acontecer, te falei, eu sou onisciente.

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