domingo, 29 de setembro de 2013

O lado sarcástico da lua

Havia um mendigo na calçada.
Quem poderia imaginar isso, não é?
Pois bem, você não se impressionaria então, caso fosse dito que este pedinte encontrou um segundo, sentado sobre um largo pano imundo no chão de uma rua bastante movimentada, ao lado de uma lata velha cheia de moedas.
            O primeiro usava bermuda curta e camisa de futebol de time irreconhecível devido ao excesso de sujeira. Carregava consigo uma gama de odores herdados dos cantos mais sujos em que passara naquele dia. Ao ver um colega de imploração com espaço extra em seu lençol, percebeu a oportunidade de  fazer algo que sabia muito bem.
            - Posso te pedir uma coisa?
            - Deita aí – antecipou o segundo rapaz, retraindo-se para não levar os primeiros pingos da chuva que acabara de começar.
            Grato, o primeiro maltrapilho decidiu que seria agradável fazer alguma conversa para dispersar o frio eminente.
 - Noite terrível, não?
- Pelo contrário, está linda. Olha para essa lua! Tão reluzente e prateada – o homem mantinha o olhar fixo no céu. – Como nunca a percebi?
- Imagino sua frustração – respondeu, após se desfazer de uma feição reflexiva jovialmente determinada. - Ela sempre esteve ali.
O cheiro ruim deveria ser bastante comum aos sem-tetos, uma vez que, a frequência a lugares imundos e a falta de acesso a chuveiros costumam desencadear esse aspecto. No entanto, isso parecia algo novo para o segundo homem. Ao distinguir alguns dos odores, ele ajeitou-se alguns centímetros mais distante e cobriu seu nariz com a mão.
- Está entorpecido?
- Deveria responder entorpecidos para o caso de mais de uma droga?
- A língua portuguesa não funciona assim – disse rispidamente. Sua cara estupefata de tia conservadora que acabara de constatar o conhecimento sexual detalhado de sua sobrinha de nove anos revelava o quanto tudo aquilo era bastante novo e constrangedor para ele. Um feixe de curiosidade invadiu seus pensamentos. - Como chegou nesse estado?
- Tentando esquecer um estado muito pior.
- Valeu a pena?
O homem “bastante relaxado” despreocupadamente tomou seu tempo para pensar.
- Nessa condição mental, é bastante difícil ponderar – respondeu finalmente, quando aquele mesmo feixe resolveu dar uma bisbilhotada em seu cérebro também -, e quanto ao senhor, que fala sobre a lua como se tivesse acabado de sair de um casulo?
- A mesma velha história.
O “entorpecidos” tentou acessar informações em sua mente para associa-las com a frase que acabara de ouvir, mas sob o efeito de todas aquelas drogas e ainda com esse novo feixe ocupando espaço estava muito difícil encontrar alguma coisa e acabou por reproduzir a lembrança mais frequente que encontrara: fazer cara de confuso.
- O amor! – explicou o mendigo da latinha. – Era um médico tão brilhante quanto essa lua que nos banha agora, até descobrir que estava sendo traído por minha esposa com o diretor do hospital. Havia passado tudo para o nome dela, em caso de processo, sabe? – continuou, com expressão lúgubre – Já tinha mais de 20 anos de casamento, não imaginava que tudo terminaria assim.
- Ela ficou com tudo?
- Cada par de meia.
O semblante do rapaz fedorento demonstrava uma atividade vaga. Observadores iniciantes diriam que um vácuo seguiu-se na conversa, porém, os mais atentos poderiam constatar que ele tentava relacionar tudo aquilo.
- Por que a lua brilha mais agora?
- Nunca havia prestado atenção em seu brilho, acredito. De qualquer forma, de onde venho há maior poluição luminosa, o que ofusca o brilho dos astros, tornando-os menos rutilantes.
- Isso é besteira – afirmou, com bastante certeza. – Sei exatamente o que está acontecendo aqui.
Dessa vez, o médico foi quem usou sua navegação mental para encontrar o semblante de confusão.
- É um sorriso sarcástico – explicou, dando uma gargalhada incompreensível. – A lua é sempre tão majestosa e monárquica lá em cima e você nunca a deu atenção. Agora que não poderia estar pior, ela faz questão de brilhar ironicamente para você.
- Acredito – iniciou o médico, pigarreando em seguida – que o resto das drogas começou a fazer efeito.
- Se eu tivesse a sua vida, com certeza, voltaria para reconquistar o amor da minha vida.
- Faria isso em vão, a vida não destina pessoas ao amor.
- Nunca viu a relação de uma mãe com seu filho, então.
- Isso é afeto facilitado pela produção de oxitocina no hipotálamo.
            O rapaz de bermuda curta não precisou de muito esforço para reproduzir novamente aquela desorganização mental.
- É muito mais fácil amar algo que provém de seu DNA.
            A expressão permaneceu.
            - O que estou tentando dizer, é que, o conceito de amor ensinado para nós desde a infância está errado. Não há cavaleiros e princesas; não há homens de honra e donzelas em perigo. Apenas pessoas que se conhecem e dão certo. Se isto vai progredir ou não, depende de quão motivados ambos os lados estão em construir algo forte o suficiente para que finalmente mereça ser chamado de amor.
            O aparente vácuo retornou à conversa. O indigente de bermudas esperou um momento para que todas aquelas palavras ressoassem de forma efetiva em seu cérebro. A chuva acabara de cessar, o que ajudou-o a focar-se nisso, pois o barulho e as gotas que casualmente caiam sobre o seu rosto – além daquele feixe e os efeitos relaxantes dos entorpecentes – distraiam-lhe muito. O fluxo de pessoas, porém, voltou segundos depois, servindo como estímulo igualmente distrativo.
- Se amor não é uma casa herdada, mas uma fortaleza construída, o que aconteceu com a sua? – indagou, por fim.
            - Despencou, e foi decidido que não valeria mais a pena retomar pelo que remanesceu.
            - Pode encontrar outra pessoa!
 Um dos inúmeros jovens que passavam por aquela calçada jogou duas moedas na latinha.
- Olha como está cheia! – fundamentou, estendendo a sua mão para o recipiente. - Ainda existem pessoas que valem a pena no mundo.
-Acha mesmo que, aquele garoto, por exemplo – disse, referindo-se ao jovem – é um bom humano apenas porque doou algumas moedas? – prosseguiu, acenando negativamente com o rosto. - Pessoas costumam supervalorizar pequenos e bons atos para esquecerem-se de quanto são defeituosas. Seja pensando “Isso é para um bem maior” ou “Se isso acontece há tanto tempo, também posso tirar minha casquinha”.
            O segundo indigente pigarreou, pedindo a palavra.
            - “Levo fé e esperança à humanidade, portanto, não faz mal aliciar uma ou duas crianças ocasionalmente”.
            - Ótimo exemplo.
            - Devo admitir que isso me fez pensar – disse o homem entorpecido, olhando para o rebanho de seres humanos que passava por eles. – Olha como estão presos aos seus aparelhos eletrônicos. Viciados e dependentes como qualquer outro morador de rua – concluiu. - Por que somos nós quem tem que viver como escória?
            - Porque amor não foi o único conceito que aprendemos errado – constatou o médico, dando um suspiro de insatisfação -, o de humanidade também.
            - Poderia voltar, nem que fosse para sobressair-se nesse mundo de humanos que você julga tão inferior.
            O mendigo de camisa de futebol deitou-se de lado sobre o pano e virou-se de costas para o médico. Tentou chegar o mais próximo que pôde da definição de “acomodar-se”.
            - Os motivos apenas me repelem de lá – afirmou, repetindo o movimento de seu colega. Aquela definição era ainda mais criteriosa para ele, fazendo-o passar longe dela - e aqui, pelo menos, a lua é bonita.
            - E tem senso de humor – arrematou o rapaz entorpecido, repousando o rosto em suas mãos.


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