domingo, 14 de julho de 2013

Pronto para o sono perpétuo

     Joguei-me da ponte, mas a morte não veio súbita como esperava. Permaneci esparramado no chão, consciente e inarticulado. Estava com medo, mas não sentia os sintomas desconfortantes em minha espinha. Jamais imaginava que o choque do meu corpo com o concreto me causaria um efeito anestesiante.
     Não espere que eu comece a contar uma história cujo, no fim, essa cena fará sentido. Quando saí de casa, esperava voltar tão inteiro como saí. Simplesmente comecei a caminhar sobre a ponte, constatei minha insignificância diante daquele enorme curral urbano cheio de gente. Constatei que nunca fizera nada de importante para alguém e recordei-me de como toda minha vida se resumia a promiscuidades, insignificância e ignorância. Senti a soma da vergonha de todas essas lembranças de uma vez, o que durou um ou dois segundos.
     Daí eu pulei, me pareceu uma solução apropriada na hora.
     A eminência da morte nunca foi tão aterrorizante e o terror apenas progredia, na medida em que percebia a poça de sangue crescendo em minha volta. Peguei-me lembrando da lagoa reluzente no parque. Tão linda, mas tão banalizada.
     "Por que não comi uma fatia de pizza antes?" pensei. Tinha que aturar o gosto da bala de café na língua. Gostava de falar que era o meu sabor de bala preferido, mas na verdade, só falava isso para ter o que responder quando me faziam esse tipo de pergunta. Nunca entendi quem tinha um sabor de bala preferido. Ou de miojo.
     Senti falta do sorriso inocente de meu sobrinho, que despreocupadamente bagunçava a casa e não concebia o trabalho que teriam para arrumar tudo;
     Da colônia natural de erva doce da minha irmã, que em condições habituais, me davam náuseas. Na verdade, senti falta de todas as pessoas cheirosas. Minha nossa, eu odiava cada um ser humano nessa terra, mas alguns indivíduos simplesmente sabiam como tornar um ambiente aromaticamente agradável.
     Arrependi-me de ter reclamado, ao invés de admirado quando o canto dos pássaros me acordava pela manhã;
     De todas as vezes em que briguei com minha mãe, quando na maior parte do tempo, mesmo que de uma maneira singular e ininteligível, mesmo que durante uma repreensão, estava demonstrando as únicas evidências do amor verdadeiro que presenciaria em minha vida. Também senti falta dela, mas talvez fosse vê-la logo. "Aquela velha não está em uma situação tão diferente da minha", pensei.
     Foi nesse ponto, que uma mosca pousou no meu rosto. Pulou, pulou, parou. Esfregou as patas como se tramasse um plano maligno. Aproveitei o momento para me arrepender de não ter contemplado isso também.
     Conclui que, todas essas coisas, por mais ínfimas e corriqueiras, por mais fugazes e imperceptíveis no oceano da rotina, seriam motivos mais consistentes para viver do que os que me levaram à queda.
     Lágrimas encharcavam minha visão. ´
     Lembrei-me do aconchego de minha cama e conclui que preferia ter caído em cima dela.
     Fechei os olhos e pude perceber meu coração batendo. Infelizmente, ele permanecia fazendo isso. Em um som lento, contínuo e desagradável.
     Como a repentina crise de lembranças antes do pulo, enchi-me com uma coragem inexplicável, mantive os olhos firmemente fechados e respirei o mais fundo que pude. Arrependido pelas impulsividades dos meus atos; conformado por finalmente, ter valorizado as coisas certas; pronto para o sono perpétuo.


2 comentários:

  1. Eu realmente adoro seus textos e o modo como você escreve...

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  2. resistiu a travessia oceânica com a genialidade intacta :)


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