quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Um Oriental na Eternidade

     – Agora vou contar a história de Kazuki Kurokawa – disse minha avó, competindo a atenção com o peru recém-destampado. Seria a trigésima vez que eu ouviria essa história, pois eu tinha trinta anos e ela contava isso todo natal. Quem tinha quarenta e nove anos, a ouviria pela quadragésima nona vez.
     Kazuki Kurokawa, o cientista que atravessou dois continentes para conhecer o Rio Negro e escolheu minha avó para espalhar suas cinzas nele. Nunca acreditei. Havia muitas perguntas sem respostas. Me parecia loucura de uma mulher que era afeiçoada por índios e passou boa parte da juventude tomando chás alucinógenos com eles ou mentira de alguém que conviveu demais com ribeirinhos – eles adoram inventar conversa. Já estava cheia daquela história, se tivesse que ouvi-la mais uma vez, eu mesma me atearia fogo e pediria que jogassem minhas cinzas no Rio Negro. Quando fez seu anúncio, não me contive e disse tudo isso pra ela.
     Quanto mais olhares miravam-se à mim e despregavam-se do peru de natal, maior se tornava em minha percepção o erro que acabara de cometer. Todos os olhos ao redor da mesa atiravam condenações através do silêncio.
     – Eu entendo você – respondeu minha avó, brandamente –, se no lugar desconhecido habita o desejo, na falta de respostas reside a inquietude – prosseguiu – Me aguarde aqui.
     Ela foi ao seu quarto, retornou segurando um envelope e o entregou-me.– Leia esta carta em voz alta, por favor.
     O aspecto obsoleto do papel e os cantos consumidos pelas traças revelavam que esteve esquecido por algum tempo. Tratava-se de uma carta vinda do japão. Kazuki Kurokawa era o remetente, o que me chocou, pois isso provava a sua existência. Retirei uma folha do envelope e a li como me foi pedido.
     “Olá, velha amiga. Peço-lhe com antecedência que queime esta carta após lê-la, pois ela pode romper a tradicional discrição da minha família. Infelizmente, falecerei antes que você a receba. Temo que as circunstâncias dos nossos encontros tenham causado-lhe dúvidas, afinal não há nada que inquiete mais as nossas mentes de cientistas do que a falta de respostas.
     Por que um especialista em água doce escolheu um rio tão distante de seu corpo e de sua história? Por que não o Rio Sebik, no qual passei boa parte da minha vida entre montanhas e pântanos, estudando a biodiversidade daquela região exótica e cheia de aborígenes? Ou o Rio Shinano, palco das Batalhas de Kawanakajima, bravamente lutadas pelos ancestrais da minha família, sempre referidos por meu avô como verdadeiros samurais.
     Para responder essas indagações, preciso contar a história de um presente de infância. Um medalhão, que sempre carreguei comigo, cujo a face frontal ilustrava o famoso simbolo do yin e yang e o seu verso apresentava ideogramas com o seguinte significado:
     “O bem e o mal se atraem e tendem a tornarem-se um só pela eternidade.”
     Desde criança, minha mãe ensinou-me que na vida, o bem e o mal apresentam-se em uma sinfonia cujo os instrumentos são indiscerníveis. O que é bom também é mal. Pessoas, objetos, experiências, a regra valia para tudo. “Veja o Bem como uma maçã”, disse ela, numa vívida memória de infância, “e o Mal como uma banana. Bata os dois num liquidificador. O resultado vai ser a essência de tudo o que existe. Uma vitamina de maçã e banana.”
     – O que você sabe sobre o Brasil? – perguntou minha mãe, durante um jantar quando eu tinha doze anos.
     – Eu conheço os rios – respondi. – Existe um fenômeno, que os brasileiros chamam de “o encontro das águas”, em que dois rios correm lado a lado por seis quilômetros e quando se misturam, assim como a união do Bem e do Mal, tornam-se um só, o rio Amazonas, o maior do mundo. Um deles é negro como a noite, por causa das minhocas que moram nele. Elas expelem um ácido chamado húmus e como se o rio fosse uma chaleira gigante, o ácido decompõe as folhas e galhos, o que forma a cor escura.
     – E sobre a história do casal de japoneses no Brasil? – ela perguntou, desconsiderando a interessantíssima informação que havia falado.
     Neguei com a cabeça. Tinha a ouvido por partes em conversas “de adulto” das quais eu não participava.
     – Então está na hora de ouvi-la – disse – Preste atenção. Uma mulher, na companhia de alguns conterrâneos, fugiu do Japão devido a perseguição da policia nazista. Junto com seu grupo, ela foi para Manaus, uma cidade brasileira que costumava ser muito rica, pois exportavam borracha, matéria-prima muito importante para a confecção de armas. Trabalhou na extração de látex por quase um ano.
     “Como levou algum dinheiro do Japão, somou com a quantia considerável que ganhou trabalhando quatorze horas por dia e comprou um pequeno terreno no qual produziu o seu próprio látex. Conseguiu compradores e empregados. Aos poucos, seu seringal cresceu e ela tornou-se uma seringalista de muitos recursos. Um de seus empregados, um japonês também refugiado, tornou-se seu marido e juntos tiveram um filho. Diferente dos outros donos de seringal, ela solicitava o estocamento das sementes e foram guardadas em centenas de sacos por quase meia década”.
     “A guerra acabou. O negócio de produção de borracha enfraqueceu. A maioria dos trabalhadores que não morreram viraram mendigos ou escravos por dívidas. A cidade voltou a ser pobre, mas não o casal de japoneses. Eles abriram uma fábrica de tintas e vernizes, produzidos a partir das sementes de Seringueiras. Viveram uma vida razoável com o recém-nascido ao redor do Rio Solimões, juntos com os habitantes locais e alguns refugiados.”
     “Um policial apareceu um dia, gritando que os moradores deveriam se retirar em uma semana, por bem ou por mal. Todos, num raio de mil quilômetros, seriam desapropriados para a obra da primeira grande construção amazonense: A Usina Hidrelétrica de Balbina. Quando o policial retornou na semana seguinte, aborígenes, moradores e refugiados organizaram-se em uma multidão, obstruindo a passagem até a vila em que moravam. Reforços policiais chegaram, organizaram-se em linha e marchando rumo à aglomeração, dissolveram-na”.
     “Uma pedra arremessada em um policial bastou para que começassem a abrir fogo contra os civis. O casal de japoneses correu de volta para casa. A mulher pegou seu bebê e junto com seu marido, pegaram uma canoa na beira do rio. Remavam o mais rápido possível, quando uma bala perdida os encontrou. Atravessou o peito do homem e atingiu a cabeça da mulher. Ambos caíram direto na água. Uma refugiada japonesa testemunhou a queda e mergulhou até o casal, mas constatou que apenas a criança sobrevivera. Ela a resgatou e adentrou a mata amazônica. Os corpos dos pais foram levados pelo Rio Solimões e nunca foram achados. O bebê estava enrolado por dois panos e usava, em volta do pescoço, esse colar que você usa agora, Kazuki.”
     Olhei para o colar, tentando fazer uma associação.
     – Fui eu a refugiada que te resgatou do rio – ela concluiu.
     A revelação não me chocou, os pais que me criaram sempre foram meus verdadeiros pais, mas desde que ouvi essa história, a sensação de pertencimento àquelas pessoas e àquele lugar cresceu em mim, o fato de que jamais os conheceria me incomodou e nunca esqueci a metáfora com o encontro das águas. Assim como a inevitável atração do bem e do mal, o Rio Negro se unirá ao rio Solimões e eu me tornarei um só com meus pais pela eternidade.”
     Terminando de ler a carta, olhei para minha avó e a vi chorando. Abracei-a, também emocionada.
     – Nunca tive coragem de lê-la – disse ela. – Vamos fazer como ele pediu e queimá-la – prosseguiu.
     Todos nós à mesa abandonamos o peru e fomos ao quintal no fundo da casa. Improvisamos uma fogueira e colocamos a carta sobre ela. E observando essa última lembrança do cientista em forma de fumaça branca, flutuando rumo à vastidão de um rio negro celestial, ouvimos minha vó contar mais uma vez a história de Kazuki Kurokawa.

sábado, 9 de julho de 2016

Como provar sua onisciência

O lado dela estava vazio. Antes de conhecê-la, gostava de me esparramar pelo meio da cama. Não sabia que horas eram, só que era madrugada. Fazia anos que não tinha rádio-relógio, presente de casamento. Não queria pegar o celular. Tinha medo de receber um whats ou uma notificação dela, ou de algum amigo em comum, e então saber, de vez, que tudo acabou. Perdi o emprego, perdi o cachorro – o Sansão –, perdi o amor da minha vida e, nisso tudo, me perdi também. É, meu pai tinha razão: nunca conseguiria manter nada nessa vida.

Seu aroma de limão siciliano permanecia no travesseiro, resgatando em minhas memórias os momentos que passamos juntos. O rosto dela era o tesouro que sempre procurei. O brilho de seu cabelo ofuscava a luz do sol. Eu costumava dizer que foi feita por Deus especificamente para mim, o que de imediato a derretia. Meus olhos lacrimejavam. Uma das principais frases de desmotivação de meu pai surgiu em minha mente: “Tome jeito na vida ou vai continuar sendo um merda para sempre”. Me encolhi e abracei meus joelhos. De fato, o que eu conseguiria deitado na cama? A ideia de me declarar para ela quantas vezes fosse necessário até que me aceitasse de volta me ocorreu. Até me ajoelharia. Ela veria o quanto nosso amor era incomensurável.

A ideia de reencontrá-la energizou o meu corpo. Me levantei e me dirigi ao armário para vestir minhas melhores roupas, quando algo rompeu meu teto e caiu sobre mim.

Acordei numa sala feita de nuvem com apenas uma porta e outro homem.

— O que aconteceu? — perguntei.

— Um cachalote, mas ainda vai acontecer — disse o homem — poderá ter acontecido — continuou, apertando os olhos — Sempre peco nessa coisa de gramática de viagem no tempo. É o seguinte, filho meu, te arrebatei porque você estava sendo muito piegas.

— Você é Deus?

— Talvez, prefiro Francisco – respondeu. – Apostei com os querubins que você não tentaria reconquistar a garota. Eu sei, eu sei, isso é muito errado em diversos âmbitos, ouço isso o tempo todo, mas essa é a verdade: a Terra é uma espécie de reality show para nós aqui e a humanidade existe por isso, apenas supere.

Meu corpo entraria em desespero se parte de mim não acreditasse que isso tudo era um sonho.

— Sei que você acredita que isso tudo é um sonho e te garanto que pode ser, embora concordemos que esse é o pior final possível pra qualquer história. Deixa eu te explicar: os anjos andam duvidando da minha onisciência desde que Eva comeu o fruto proibido, dizendo que eu só mandei escrever isso em Salmos porque tenho um ego inflado e frágil. Talvez meu ego seja meio inflado mesmo, sabe? Sempre espero que as pessoas me engrandeçam, me exaltem, me louvem, me glorifiquem, eu inventei esses verbos só pra serem usados comigo. Agora preciso provar para mim mesmo e para eles de que sou onisciente, sim. Entre na porta.

Hesitei para entrar, temia não voltar mais. A madeira da porta parecia com a de um caixão usado, mas a parede reluzia de forma tão penetrante quanto os cabelos de...

— Entra logo nessa porta, ô pamonha! Piegas e medroso, é por isso que as mulheres te largam. Leitor, deixa eu te falar uma coisa, sim, oi Leitor, eu sei, metalinguagem e tal, Deus pode fazer isso. Onipotência. Desculpe a interrupção, mas vou assumir o papel de narrador dele, pois estou sem paciência.

Prosseguindo, ele entrou. O chão de lama e as paredes de madeira faziam o lugar parecer um chiqueiro. Ou o inverso de um chiqueiro: os porcos eram pessoas e as pessoas que dominavam-nas eram porcos. História humana que se repetia. “Haben die Operation ohne Narkose!”, rosnou um dos porcos. “Wie Sie Wünschen, sir! Heil Hitler!”, grunhiu outro. Um homem subnutrido jazia sobre uma mesa de concreto, amarrado por cordas enquanto outro abria-lhe a barriga com um bisturi. Ouvia-se apenas os seus gritos no Campo de Concentração.

— O que está acontecendo? — meu companheiro perguntou.

— Bom, o que você tá vendo: alguém com um problema bem maior que o seu. Vamos andando.

Entramos noutra Porta do Escárnio. Ah, é assim que se chamam essas portas. Elas surgem onde eu, Francisco, quiser e me levam para meu destino de desejo. Onipresença. Estávamos na UTI de um hospital. Um rapaz em estado terminal deitava-se numa maca. Aproximei-me para interagir com ele. Projetei-me para ele com um manto branco em meu corpo e uma prancheta em minha mão.

— Deixa eu ver aqui — falei, olhando um relatório — Jorge Carlos, não é isso?

— Deus? — perguntou o moribundo.

— Talvez — respondi e voltei a olhar na prancheta. — Notório humorista. Conhecido por suas piadas com Deus e religião. Fez muitos rirem com seu humor “negro” e ácido. Muito bem, Jorge, parabéns! Estou aqui pois esses são seus últimos segundos, só para te dizer que não importa o quanto se riu dos outros, pois no fim da vida a verdadeira piada é você. — Nesse momento, o coração de Jorge parou de funcionar para sempre.

Meu companheiro parecia estupefato. Passamos por mais um portal. Dessa vez, enviei-nos para uma rua às 23 horas. Apenas um homem e uma mulher caminhavam e conversavam na calçada. Meu parceiro reconheceu o rapaz. Era o seu pai, que agora segurava a mulher pela cintura, mas antes de tentar beijá-la, ela o afastou.

— Você é bem diferente das fotos no Tinder – disse a moça.

— Ah, gatinha, pelo menos um beijinho você tem que me dar — disse o rapaz. Tentou beijá-la mais uma vez, levou um empurrão. Agarrou-a e a pressionou contra uma parede, ela gritou. Pensou em tampar sua boca quando alguém surgiu de uma das esquinas da rua. Largou-a onde estava e saiu de cena assobiando.

— Talvez você não consiga manter nada, como ele dizia, mas gostaria de conseguir coisas desse jeito?

— Não acredito que meu pai faz isso.

— Foi só essa vez, mas o ponto aqui é o seguinte: o que ele te dizia eram opiniões de um ser humano que, como outro qualquer, é passível de erro, portanto, você não deveria tomá-las como verdades absolutas.

Retornamos à sala de nuvem. Projetei um controle com dois botões em minha mão. Num botão, estava escrito “Tudo um sonho” e no outro “Cachalote”. Perguntei-o o que havia achado do tour espiritual.

— Isso tudo foi para menosprezar o amor que sinto por ela?

— Foi para te tirar daquela bolha cheia de pieguice e drama na qual você se encontrava.

— Ela é o amor da minha vida!

— Que amor de vida o quê! Tu acha mesmo que eu me daria ao trabalho de elaborar uma pessoa que minunciosamente te completasse?! Humanos são feitos de qualquer jeito, justamente pra ficarmos assistindo vocês brigarem, fazerem barraco, é hilário. Hora da sua decisão. Vai desistir da menina?

— Entenda, por favor, se ceder, terei que lidar com o fardo de ser um desistente. O que sinto por ela nunca vai passar. Vai crescer até tornar-se incontrolável. É inevitável. Eu vou morrer de amor.

— Tá, tá, já entendi — falei e apertei o botão do cachalote. No mesmo instante, ele sumiu da minha frente para sempre. Horas depois, um anjo me perguntou sobre a aposta.

— Ah, um cachalote o esmagou, acredita? — respondi ao anjo — Como ele não reconquistou a garota, eu ganhei, mas devo admitir: só entrei na aposta porque já sabia que isso ia acontecer, te falei, eu sou onisciente.

domingo, 29 de setembro de 2013

O lado sarcástico da lua

Havia um mendigo na calçada.
Quem poderia imaginar isso, não é?
Pois bem, você não se impressionaria então, caso fosse dito que este pedinte encontrou um segundo, sentado sobre um largo pano imundo no chão de uma rua bastante movimentada, ao lado de uma lata velha cheia de moedas.
            O primeiro usava bermuda curta e camisa de futebol de time irreconhecível devido ao excesso de sujeira. Carregava consigo uma gama de odores herdados dos cantos mais sujos em que passara naquele dia. Ao ver um colega de imploração com espaço extra em seu lençol, percebeu a oportunidade de  fazer algo que sabia muito bem.
            - Posso te pedir uma coisa?
            - Deita aí – antecipou o segundo rapaz, retraindo-se para não levar os primeiros pingos da chuva que acabara de começar.
            Grato, o primeiro maltrapilho decidiu que seria agradável fazer alguma conversa para dispersar o frio eminente.
 - Noite terrível, não?
- Pelo contrário, está linda. Olha para essa lua! Tão reluzente e prateada – o homem mantinha o olhar fixo no céu. – Como nunca a percebi?
- Imagino sua frustração – respondeu, após se desfazer de uma feição reflexiva jovialmente determinada. - Ela sempre esteve ali.
O cheiro ruim deveria ser bastante comum aos sem-tetos, uma vez que, a frequência a lugares imundos e a falta de acesso a chuveiros costumam desencadear esse aspecto. No entanto, isso parecia algo novo para o segundo homem. Ao distinguir alguns dos odores, ele ajeitou-se alguns centímetros mais distante e cobriu seu nariz com a mão.
- Está entorpecido?
- Deveria responder entorpecidos para o caso de mais de uma droga?
- A língua portuguesa não funciona assim – disse rispidamente. Sua cara estupefata de tia conservadora que acabara de constatar o conhecimento sexual detalhado de sua sobrinha de nove anos revelava o quanto tudo aquilo era bastante novo e constrangedor para ele. Um feixe de curiosidade invadiu seus pensamentos. - Como chegou nesse estado?
- Tentando esquecer um estado muito pior.
- Valeu a pena?
O homem “bastante relaxado” despreocupadamente tomou seu tempo para pensar.
- Nessa condição mental, é bastante difícil ponderar – respondeu finalmente, quando aquele mesmo feixe resolveu dar uma bisbilhotada em seu cérebro também -, e quanto ao senhor, que fala sobre a lua como se tivesse acabado de sair de um casulo?
- A mesma velha história.
O “entorpecidos” tentou acessar informações em sua mente para associa-las com a frase que acabara de ouvir, mas sob o efeito de todas aquelas drogas e ainda com esse novo feixe ocupando espaço estava muito difícil encontrar alguma coisa e acabou por reproduzir a lembrança mais frequente que encontrara: fazer cara de confuso.
- O amor! – explicou o mendigo da latinha. – Era um médico tão brilhante quanto essa lua que nos banha agora, até descobrir que estava sendo traído por minha esposa com o diretor do hospital. Havia passado tudo para o nome dela, em caso de processo, sabe? – continuou, com expressão lúgubre – Já tinha mais de 20 anos de casamento, não imaginava que tudo terminaria assim.
- Ela ficou com tudo?
- Cada par de meia.
O semblante do rapaz fedorento demonstrava uma atividade vaga. Observadores iniciantes diriam que um vácuo seguiu-se na conversa, porém, os mais atentos poderiam constatar que ele tentava relacionar tudo aquilo.
- Por que a lua brilha mais agora?
- Nunca havia prestado atenção em seu brilho, acredito. De qualquer forma, de onde venho há maior poluição luminosa, o que ofusca o brilho dos astros, tornando-os menos rutilantes.
- Isso é besteira – afirmou, com bastante certeza. – Sei exatamente o que está acontecendo aqui.
Dessa vez, o médico foi quem usou sua navegação mental para encontrar o semblante de confusão.
- É um sorriso sarcástico – explicou, dando uma gargalhada incompreensível. – A lua é sempre tão majestosa e monárquica lá em cima e você nunca a deu atenção. Agora que não poderia estar pior, ela faz questão de brilhar ironicamente para você.
- Acredito – iniciou o médico, pigarreando em seguida – que o resto das drogas começou a fazer efeito.
- Se eu tivesse a sua vida, com certeza, voltaria para reconquistar o amor da minha vida.
- Faria isso em vão, a vida não destina pessoas ao amor.
- Nunca viu a relação de uma mãe com seu filho, então.
- Isso é afeto facilitado pela produção de oxitocina no hipotálamo.
            O rapaz de bermuda curta não precisou de muito esforço para reproduzir novamente aquela desorganização mental.
- É muito mais fácil amar algo que provém de seu DNA.
            A expressão permaneceu.
            - O que estou tentando dizer, é que, o conceito de amor ensinado para nós desde a infância está errado. Não há cavaleiros e princesas; não há homens de honra e donzelas em perigo. Apenas pessoas que se conhecem e dão certo. Se isto vai progredir ou não, depende de quão motivados ambos os lados estão em construir algo forte o suficiente para que finalmente mereça ser chamado de amor.
            O aparente vácuo retornou à conversa. O indigente de bermudas esperou um momento para que todas aquelas palavras ressoassem de forma efetiva em seu cérebro. A chuva acabara de cessar, o que ajudou-o a focar-se nisso, pois o barulho e as gotas que casualmente caiam sobre o seu rosto – além daquele feixe e os efeitos relaxantes dos entorpecentes – distraiam-lhe muito. O fluxo de pessoas, porém, voltou segundos depois, servindo como estímulo igualmente distrativo.
- Se amor não é uma casa herdada, mas uma fortaleza construída, o que aconteceu com a sua? – indagou, por fim.
            - Despencou, e foi decidido que não valeria mais a pena retomar pelo que remanesceu.
            - Pode encontrar outra pessoa!
 Um dos inúmeros jovens que passavam por aquela calçada jogou duas moedas na latinha.
- Olha como está cheia! – fundamentou, estendendo a sua mão para o recipiente. - Ainda existem pessoas que valem a pena no mundo.
-Acha mesmo que, aquele garoto, por exemplo – disse, referindo-se ao jovem – é um bom humano apenas porque doou algumas moedas? – prosseguiu, acenando negativamente com o rosto. - Pessoas costumam supervalorizar pequenos e bons atos para esquecerem-se de quanto são defeituosas. Seja pensando “Isso é para um bem maior” ou “Se isso acontece há tanto tempo, também posso tirar minha casquinha”.
            O segundo indigente pigarreou, pedindo a palavra.
            - “Levo fé e esperança à humanidade, portanto, não faz mal aliciar uma ou duas crianças ocasionalmente”.
            - Ótimo exemplo.
            - Devo admitir que isso me fez pensar – disse o homem entorpecido, olhando para o rebanho de seres humanos que passava por eles. – Olha como estão presos aos seus aparelhos eletrônicos. Viciados e dependentes como qualquer outro morador de rua – concluiu. - Por que somos nós quem tem que viver como escória?
            - Porque amor não foi o único conceito que aprendemos errado – constatou o médico, dando um suspiro de insatisfação -, o de humanidade também.
            - Poderia voltar, nem que fosse para sobressair-se nesse mundo de humanos que você julga tão inferior.
            O mendigo de camisa de futebol deitou-se de lado sobre o pano e virou-se de costas para o médico. Tentou chegar o mais próximo que pôde da definição de “acomodar-se”.
            - Os motivos apenas me repelem de lá – afirmou, repetindo o movimento de seu colega. Aquela definição era ainda mais criteriosa para ele, fazendo-o passar longe dela - e aqui, pelo menos, a lua é bonita.
            - E tem senso de humor – arrematou o rapaz entorpecido, repousando o rosto em suas mãos.


domingo, 14 de julho de 2013

Pronto para o sono perpétuo

     Joguei-me da ponte, mas a morte não veio súbita como esperava. Permaneci esparramado no chão, consciente e inarticulado. Estava com medo, mas não sentia os sintomas desconfortantes em minha espinha. Jamais imaginava que o choque do meu corpo com o concreto me causaria um efeito anestesiante.
     Não espere que eu comece a contar uma história cujo, no fim, essa cena fará sentido. Quando saí de casa, esperava voltar tão inteiro como saí. Simplesmente comecei a caminhar sobre a ponte, constatei minha insignificância diante daquele enorme curral urbano cheio de gente. Constatei que nunca fizera nada de importante para alguém e recordei-me de como toda minha vida se resumia a promiscuidades, insignificância e ignorância. Senti a soma da vergonha de todas essas lembranças de uma vez, o que durou um ou dois segundos.
     Daí eu pulei, me pareceu uma solução apropriada na hora.
     A eminência da morte nunca foi tão aterrorizante e o terror apenas progredia, na medida em que percebia a poça de sangue crescendo em minha volta. Peguei-me lembrando da lagoa reluzente no parque. Tão linda, mas tão banalizada.
     "Por que não comi uma fatia de pizza antes?" pensei. Tinha que aturar o gosto da bala de café na língua. Gostava de falar que era o meu sabor de bala preferido, mas na verdade, só falava isso para ter o que responder quando me faziam esse tipo de pergunta. Nunca entendi quem tinha um sabor de bala preferido. Ou de miojo.
     Senti falta do sorriso inocente de meu sobrinho, que despreocupadamente bagunçava a casa e não concebia o trabalho que teriam para arrumar tudo;
     Da colônia natural de erva doce da minha irmã, que em condições habituais, me davam náuseas. Na verdade, senti falta de todas as pessoas cheirosas. Minha nossa, eu odiava cada um ser humano nessa terra, mas alguns indivíduos simplesmente sabiam como tornar um ambiente aromaticamente agradável.
     Arrependi-me de ter reclamado, ao invés de admirado quando o canto dos pássaros me acordava pela manhã;
     De todas as vezes em que briguei com minha mãe, quando na maior parte do tempo, mesmo que de uma maneira singular e ininteligível, mesmo que durante uma repreensão, estava demonstrando as únicas evidências do amor verdadeiro que presenciaria em minha vida. Também senti falta dela, mas talvez fosse vê-la logo. "Aquela velha não está em uma situação tão diferente da minha", pensei.
     Foi nesse ponto, que uma mosca pousou no meu rosto. Pulou, pulou, parou. Esfregou as patas como se tramasse um plano maligno. Aproveitei o momento para me arrepender de não ter contemplado isso também.
     Conclui que, todas essas coisas, por mais ínfimas e corriqueiras, por mais fugazes e imperceptíveis no oceano da rotina, seriam motivos mais consistentes para viver do que os que me levaram à queda.
     Lágrimas encharcavam minha visão. ´
     Lembrei-me do aconchego de minha cama e conclui que preferia ter caído em cima dela.
     Fechei os olhos e pude perceber meu coração batendo. Infelizmente, ele permanecia fazendo isso. Em um som lento, contínuo e desagradável.
     Como a repentina crise de lembranças antes do pulo, enchi-me com uma coragem inexplicável, mantive os olhos firmemente fechados e respirei o mais fundo que pude. Arrependido pelas impulsividades dos meus atos; conformado por finalmente, ter valorizado as coisas certas; pronto para o sono perpétuo.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um Estudo em Branco.


Ainda era manhã quando um homem alto de camisa comprida e óculos escuros entrou na sala da clínica do Doutor Gregory House para proporcionar os — possivelmente — dez minutos mais marcantes de sua vida. O médico, como sempre, recebeu-o desinteressado, girando as chaves em seu dedo em sinal de tédio. Apertou a mão do rapaz só porque ele estendeu primeiro. Um aperto de mão peculiar da parte do paciente.
— Eu tenho razões para acreditar que tenho lúpus — disse o paciente, recebendo o olhar de desconfiança do médico ranzinza, mas que para não ter problemas com a diretora, fechou a porta estendendo sua bengala e lidou com a situação de forma profissional.
— Uma fenda deve ter sido aberta no universo, então — disse o médico, com uma voz dramática — Que razão teria você para pensar em tal catástrofe?
— Bom, estou com erupções na pele e falta de ar. E esse foi o diagnóstico do meu último médico.
— Se já foi diagnosticado...
— Por favor, Dr. House! Eu preciso de uma segunda opinião.
— Em uma clínica geral? Deveria ter ido à um reumatologista.
— Mas você é o melhor dos melhores. É o que todos dizem. Percebe detalhes que outros médicos não conseguem...
— Ok. Mas repita isso mais vezes durante o procedimento — disse House, sempre com seu tom de ironia — Arregace as mangas... Eu não vou te tocar. Cuddy está me dando dez dolares para cada paciente que eu diagnosticar sem tocar.
Sentado em sua cadeira, há um metro do paciente, o médico deu uma rápida olhada nele, leu seu histórico e chegou à uma conclusão.
— Seu histórico diz que o exame LE foi feito mais de três vezes. Nem um idiota erraria tanto. Zonas específicas com queda de cabelo... Você está usando roupas muito folgadas, o que significa perda de peso, consistente com o diagnóstico de Lúpus e além de tudo, você tem cicatrizes de erupções ao redor de seu corpo, o que significa que os corticoides prescritos pelo médico anterior estão funcionando.
— Entendo. Então, o seu diagnóstico definitivo é de que...
— ... Que você tem um caso clássico e desinteressante de Lúpus Eritematoso Sistêmico. Seu médico já deve ter falado. É uma doença autoimune. Componentes do seu próprio organismo estão te atacando. É um diagnóstico lindo, mas chato e extremamente moralista. Não, espera... Agora estou falando da Cameron— disse House, balançando as chaves que manteve o tempo todo em sua mão.
Ao ouvir a notícia, o paciente esperneou-se em choros sentado na cama do hospital.
— É tratável. Você pode ter uma vida normal, se tomar os remédios.
— Mesmo assim ainda estarei morrendo!
— Todo mundo está morrendo. Não só você. Cada segundo que qualquer pessoa gasta nesse mundo, é um segundo que nunca mais vai voltar.
— Não me venha com essas desculpas. Eu sou o que tem que conviver com uma doença.
House o olhou como se o paciente fosse um caso perdido e simplificou sua resposta.
— Apenas tome os remédios e você vai ter mais tempo de vida que um cliente do McDonalds, ok?
— Não é sobre tempo de vida — antes do paciente terminar sua frase, House teve uma de suas epifanias com o que acabara de dizer.
— Espera um segundo... Você veio pedir uma segunda opinião mesmo sabendo que o remédio prescrito pelo último médico fez efeito... Ou você é um idiota, o que estou mais inclinado a aceitar, ou você tem outras intenções.
— Me deixa em paz! — o homem gritou, demonstrando desespero genuíno, limpando as lágrimas no rosto, mas sem tirar os óculos — Sou um moribundo, tenho direito de não fazer sentido.
— Já deveria imaginar. Mesmo quando é lúpus, não é lúpus.
— Do que diabos você está falando?
— Só um momento, preciso fazer algo... — disse o médico, que saiu da sala misteriosamente, voltou depois de dois minutos e trancou a porta — Estou de volta e triste por, provavelmente, ter que te tocar e perder dez dólares.
— Você acha que estava errado?
— Primeiro: Você está chorando por causa de uma doença tratável? Não se encaixa. Segundo: Pelas roupas que veste, você tem senso de estética, mas insiste em usar esses óculos escuros que não combinam com seu rosto de estudante aplicado, o que significa que está com fotofobia, ou pelo menos, foi isso o que quis deixar transparecer, pois é um sintoma frequente em casos de Lúpus; se este for o caso — House retirou os óculos escuros do rapaz — Melhor dizendo, se este fosse o caso, você estaria com a marca do óculos de sol. O que não é o caso porque você é um impostor.
— Seus discursos gigantes são irritantes! — ao dizer isso, é percebível uma mudança na expressão, voz e comportamento do paciente —Não tenho tanto tempo assim, tenho um assassinato para investigar.
— A versão curta, resumida em três palavras pra você: Todo mundo mente.
— Eu gosto da forma que você pensa... Eu te disse, Watson. Ele é um dos nossos! — disse o rapaz que se revelava aos poucos, enquanto removia as erupções falsas espalhadas pelo corpo e certos adereços em seu rosto que o deixava indistinguível do real.
— Tem mais alguém aqui na sala? — disse House, com uma leve esperança de que o paciente estivesse alucinando.
— Sim — o rapaz deu uma rápida olhada irônica pela sala — Está cheia de pôneis voadores, não está vendo? Não, Watson não está. Falo com ele mesmo quando está ausente, não me interessa muito se ele está ou não ouvindo. Às vezes, funciona melhor dessa forma... Aliás, ele me deve cinquenta dólares por ter acertado que você perceberia o bronzeamento ao redor dos olhos.
— Você sabia que havia um erro em sua farsa, mas veio mesmo assim, o que significa que pretendia se revelar em algum momento. Interessante. Por que não dispensou todo o drama e não veio diretamente com sua identidade real?
— Eu gosto de ver a expressão de surpresa nas pessoas, o que não consegui agora. Deve ser um rapaz acostumado com a essência humana.
— Eu sei do que as pessoas são capazes, não há mais razão para ficar surpreso. De certa forma, você está certo — disse, com certa dificuldade, mas interessado — Já que não é um idiota, por que está aqui? Espero que não seja para me seduzir, porque se foi, a fantasia com erupções na pele não foi uma escolha muito boa.
— Estou investigando um assassinato. Uma pista me trouxe até você, mas obviamente não é o assassino.
— E só por olhar para mim você concluiu que não sou o assassino?
— Precisamente — disse, nesse momento já havia retirado todos os adereços de seu rosto.
— Deve ser um ótimo investigador, então — disse House, com certo tom de desdenha.
— Amassado de um lado do blazer até à gola da camisa. Você pegou no sono no sofá ontem, assistindo televisão, já era muito tarde. Provavelmente assistindo à algum filme impróprio.
— Na verdade, The L Word.
O detetive lançou-lhe uma expressão de surpresa.
— No mudo — o médico explicou — Muito bem. Deduziu que dormi tarde porque estou com a mesma roupa de ontem, o que também sugere que cheguei atrasado. Correto? Se apenas esse critério me descartou...
— Exato. Eu persegui meu suspeito ontem a noite.
— Se você investigou o suficiente ao ponto de chegar até aqui, com certeza ouviu falar do meu problema com a perna.
— Vagamente. Mas meus anos de investigação me possibilitaram conhecer profundamente a essência do ser humano. Não foi só uma vez que desvendei casos onde o assassino fingia ser aleijado há decadas.
— Eu não poderia estar fingindo?
— Sim, se estiver tomando vicodin porque gosta do sabor.
— Legal. É como estar em uma conversa comigo mesmo... Aliás, com uma um versão virgem de mim mesmo.
Sherlock lançou-lhe um olhar mais parecido com uma advertência.
— Já ouviu falar sobre mim?
— Sem os adereços, eu te reconheci. Detetive particular Sherlock Holmes. Já li algo sobre você em uma revista — disse House, demonstrando certo respeito, mas logo mudou e voltou ao seu caráter irônico — Adorei aquela parte em que você diz "Não tenho interesse em relacionamentos, me considero casado com o meu trabalho".
— Watson se passou por mim nessa entrevista. Não tenho nenhum interesse em chegar perto de um jornalista vivo.
— Um homem precisa ter seu espaço — disse House, aparentando entusiasmo.
— Tenho uma confissão, Dr. House. Você não é um rapaz muito comum. Foi um pouco mais difícil extrair deduções de você.
— Pelo que li, o que você faz parece ser simples. A aplicação da inteligência prática. O que todos os seres humanos deveriam saber fazer, mas são muito estúpidos para sequer se importarem.
— Sem dúvidas, todas as pessoas são capazes. Mas não diria que é um raciocínio simples.
— Bom, olhando para você, eu posso dizer que...
— Dr. House, você já mostrou suas capacidades dedutivas quando descobriu minha farsa sem sequer tocar em mim. Estou me prendendo desde que cheguei para dizer as minhas conclusões sobre você. Sem tocar, da mesma forma que você fez.
— Continue.
Sherlock, então, deu uma boa olhada em House dos pés à cabeça.
— Você é infeliz, toca guitarra, dirige uma moto e é um ótimo tocador de piano— disse, enquanto olhava nos olhos de House esperando por uma reação.
— Ok... Agora é o famoso momento da explicação. Não fique olhando para mim, não vou me mostrar surpreso.
— Hm. Por onde começo...
— Pela infelicidade.
— Seus olhos estão vermelhos, consequência do consumo em excesso de vicodin. Ainda nem são dez horas. Se já se excedeu a essa hora, pode-se deduzir que é um viciado. Você tomou três pílulas de uma vez, o que sugere dor crônica, pois o remédio enfraquece ao longo do tempo e a tendência é aumentar a dose... Como você poderia não ser infeliz?
House sorriu, concordando com o detetive.
— Quanto à tocar guitarra...
— Quando entrei e apertei sua mão, pude perceber. Pontas dos dedos mais ásperas que a palma. Sem falar o óbvio, marcas estreitas de corda nos dedos. Estreitas demais para serem de violão e profundas demais para serem de qualquer outro instrumento, portanto, guitarra.
— Muito bem.
— Em relação à moto, quando fechou a porta com a bengala, pude ver que a ponteira está muito pouco gasta, mas a madeira está com aspecto obsoleto, a partir disso, conclui que vinha em algum tipo de automóvel. Seus dedos estão mais bronzeados que as costas das suas mãos, isso sugere que...— o médico o interrompeu.
— É, é, é. Obviamente. Mas como descobriu sobre o piano?
— Ah, sim. Eu dei uma olhada em volta do seu apartamento. Pude ver um piano na sala. Devo lhe parabenizar pela forma que veda as entradas de sua casa. Não consegui invadi-la de modo algum.
— Você tentou invadir meu apartamento?
— Não entendo a surpresa. Não é o mesmo que faz com seus pacientes?
— Justo — aceitou — Ok. Você viu um piano em minha sala, mas isso é inconclusivo. Poderia estar lá como um enfeite.
— Pessoas como você não ligam para estética. Não guardariam um piano que não sabem tocar no meio da sala. Além do mais, haviam livros como suporte em baixo das quatro pernas do piano, estava adaptando-o a sua altura. Não faria isso com um enfeite da sala, correto?
— Interessante — disse, deixando transparecer veneração — mas como diabos deduziu que sou um bom tocador?
— Você é infeliz, House. Com certeza é um bom tocador de piano — disse Holmes, arrancando mais um sorriso do médico ranzinza.
— Cara, devo admitir que esperava menos, afinal, não veio de mim.
— Bom. Meu trabalho aqui está feito. Suponho que não vai me dizer o nome do seu fornecedor de vicodin, correto?
— Nem uma letra.
— Como esperava. É hora de ir então. Apesar de ser um caso incrivelmente desinteressante, já estou comprometido demais para sair. Além do mais, ele me proporcionou meu ducentésimo quadragésimo quarto tipo de cinza de tabaco. Vai direto para meu site.
— Assexualidade. Inteligência absurdamente acima da média. Memória fotográfica... Você é como um coquetel de sintomas interessantes. Deixe-me fazer uma RMI e...— House foi surpreendido por um movimento bem sucedido de Sherlock para pegar as chaves que balançava com sua mão.
— Já sei onde isso vai chegar. Não tenho tempo para corresponder às suas curiosidades — respondeu Holmes, dirigindo-se à porta, porém, nenhuma das chaves funcionou. Em resposta ao constrangimento, ele olhou ameaçadoramente para House.
— Se lembra quando disse que precisava fazer algo fora da sala? Fui pegar chaves falsas — o médico triunfou, sentado na prateleira — Eu poderia te manter por mais setenta e duas horas no hospital, se dissesse que você é louco e pode ser uma ameaça.
— Seu crime não me interessa, mas se fizer isso, se me manter no hospital por mais um minuto, devo deixar você saber... Através de sua janela, pude perceber, no mínimo, dez esconderijos diferentes de vicodin. Tenho provas concretas de que você está diretamente ligado com a compra ilegal de drogas farmacêuticas, afinal, foram essas provas que me trouxeram até você. Está disposto a competir com isso?
— Tudo bem, então — House disse, depois de um suspiro inconformado — Acho que chegamos a um impasse.
— Certamente. Chegamos a um ponto em que ambas as nossas rainhas estão encurraladas.
— Uma boa metáfora, não ouço uma dessas desde que troquei minha bengala.
House jogou a chave verdadeira para Holmes, que rapidamente destrancou e abriu a porta, mas sem antes, comentar de cabeça erguida e pulmões cheios:
— Embora com apenas o movimento de um peão, eu poderia virar esse jogo — com isso, Sherlock saiu e olhou pela última vez para a sala da clínica e viu House com seu característico sorriso sarcástico.